Em pleno sábado calorento, depois de uma semana pesada na agência, subitamente relembrei das minhas férias e de como poderia ter aproveitado melhor. Agora foi. Então fui rever minhas anotações das férias e resolvi publicar. Então vai.
Introdução
Sair de férias é fácil, mas, conseguir entrar no verdadeiro clima dela é uma tarefa mais complexa. Não tiro férias de verdade desde 2002 (acho que é bem antes disso, não quero pensar que fiquei quase uma década só camelando).
Até poucos dias antes do Natal o plano era passar o ano novo em Foz do Iguaçu com uns amigos, de última hora esses amigos se mandaram de Foz pra Curitiba e só as cataratas não são motivo suficiente pra nos arrastar por mais de 600km Paraná adentro. Ficar em Curitiba não é uma opção que vai colaborar com minha sanidade mental em 2010.
Graças às forças benevolentes do universo e seus amigos temos a casa de praia dos meus sogros pra ir no verão. É lá, sem internet e sem pessoas da cidade que me conheçam que vou passar os primeiros dias do ano novo. Deus tenha piedade dos que me acompanham.
Segunda, 28 de dezembro de 2009.
Repentinamente decidimos não ir na quarta-feira cedinho para ir na terça o mais cedo possível ou assim que der, pra quem não nos conhece isso quer dizer que vamos sair tarde pra cacete, pegar transito e viajar xingando um ao outro. Medo, antes precisamos fazer umas comprinhas básicas pra poder pegar estrada. Você já foi ao mercado em fim de ano? Eu já, mas dessa vez tive que ignorar todos os males que me esperavam. Passei a tarde no SAM'S CLUB com a Uli. Como se uma guerra estivesse pra estourar compramos tudo que era “necessário” pra passar um mês na praia. Itapoá, aí vamos nós.
Calma, não é só fazer compras e se mandar pro litoral. Ainda falta o ritual de juntar tudo que você precisa usar num mês longe de casa. Separei todos os eletrônicos indispensáveis, TV, DVD, Macbook, mesa de som, micro system, scanner, HDs externos, monitor de 22" e muitos seriados e filmes. Vai que chove.
Terça, 29 de dezembro de 2009.
Nossa terça começou linda, acordados desde segunda. É muita coisa pra arrumar e fazer caber no carro. Tudo separado em sacos, sacolas, sacolinhas, caixas, sacoletas, sacolões e caixotes, bolsas e malas. Praticamente como se fossemos refugiados de alguma catástrofe. Os pacotes e caixas foram se amontoando próximo à entrada feito uma horda de anões assassinos, prontos pra nos atacar.
A missão “Empacotar e Empilhar” só acalmou quando a terça clareou no céu. Eu, mais pra lá do que pra cá, desmaiei na cama e babei até a Uli me chamar dizendo que fez café e já eram seis e pouco. Caralho! Levantei correndo e mergulhei a cara na pia pra acordar com o choque térmico. Dois copos de
1889 Café puro, dá-lhe descer a carga pra garagem.
Dica de viagem: primeiro coloque perto do carro tudo que vai nele, somente após isso tente enfiar as coisas no carro, ainda mais se ele for um modelo compacto e você tiver criança pra levar junto.
Pronto. Tudo devidamente espalhado pelo chão da garagem em volta do carro. Hora de fazer milagres, chama Jesus.
Quarta, 30 de dezembro de 2009.
Esqueci de mencionar anteriormente. Como a casa de praia passou o ano fechada e não avisamos as diaristas da praia a tempo, era mofo, merda de lagartixa por tudo e muitos bichos mortos pelos cômodos. Colchões, travesseiros e afins, tudo teve que ser deixado o dia todo ao sol. Por muita sorte nesses dois dias fez muito sol. Então era um calor dos diabos e todo mundo fazendo algo, empurrando uma coisa pra lá e pra cá.
Foi um dia de muito trabalho pra todos pra poder deixar tudo instalado, pronto pra curtir o último dia do ano.
Quinta, 31 de dezembro de 2009.
Último dia do ano é aquele clima de apocalipse. Todo mundo louco, como se a comida, cerveja, água e gelo fossem sumir do planeta durante a virada. Já tentou ir ao comércio nesse dia? Agora, imagine na praia, desgraça total.
Durante a tarde aguentamos os fogueteiros ansiosos e precoces, testando seus rojões durante o dia. Imagine se aquelas merdas falham na hora da virada.
Esse ano dei sorte, o povo se espalhou por outras praias e a família não ficou compactada na casa de praia. Passamos para o outro ano tranquilamente, com a tradicional chuva da virada e um vizinho com som eclético medonho e ensurdecedor. Maneirei na bebida, afinal eu era o único ali mais empolgado com o álcool e acordar com ressaca não é chique se você for o único bêbado da casa.
Sexta, 1º de janeiro de 2010.
A mágica do primeiro dia do ano, aquele frescor, o otimismo que toma conta da sua alma. Sei, só se for pra você.
Acordamos cedo, não pra poder aproveitar as boas vibrações desse novo dia, foi só porque o Theo pulou cedo da cama em cima da gente mesmo, sem dó. Calor infernal.
Domingo, 3 de janeiro de 2010.
Nosso cuco, o Theo, despertou super cedo de novo, antes das oito da manhã fomos despejados de nossa cama inflável. Como de costume, mandei meu café preto pra dentro pra dar aquele coice no cérebro e poder começar o dia.
Meus sogros foram embora hoje e agora somos os reis do pedaço, eu, Uli e o príncipe Theo. Para dar início ao meu reino fui arrumar as cervejas na caixa de isopor, lá estavam nadando desde o ano novo. Em seguida fui convocado para combater terríveis cupins que ousavam invadir as paredes do palácio de verão. Malditos. Tomaram SBP até que a cupinzona rainha se entregasse e eu pudesse esmagá-la com minha marreta de borracha.
Já era hora de dar uma avistada no reino do mar pela sacada, mas eis que um coqueiro insolente estacionou sua velha e longa folha sobre o guarda-corpo da sacada real. Se nenhum súdito para fazer o serviço sujo, fui eu mesmo, de armas em punho, serrar o desgraçado. Uma escalada no muro com as super Havaianas verdes e começou a luta com o coqueiro maligno que obstruía minha visão para o mar. Puxa, empurra e serra, quase caí algumas vezes para o outro lado do muro, mas o gigante folhoso desistiu e perdeu um de seus braços pra mim. Hora da cerveja ao vento. Maldição, ainda sobraram pontas do "sombreiro" comendo a vista. Essa luta deixo pra depois.
Após o almoço uma tarde lutando com as latas de cerveja me levaram ao chão. Acordei e me atraquei com outra assim que as forças voltaram. Acho que esse dia não vai me trazer novas emoções.
Quarta, 13 de janeiro de 2010.
Essa temporada no exílio, preso comigo mesmo, tem me ensinado muitas coisas. Preguiça, em doses altas faz bem.
Quinta, 14 de janeiro de 2010.
Faz mais de duas semanas que tenho dormido mal, fico catalogando e monitorando mentalmente todos os sons que a praia, a casa e a natureza em volta fazem durante a noite. Numa espécie de paranóia urbana sem cura, sempre acho que tem alguém tentando arrombar a casa em algum ponto fraco que ainda não pude verificar. Acordo várias vezes na madrugada e fico “escaneando” cada barulho pra saber se fazem parte da rotina noturna ou se é alguma coisa errada ocorrendo. Sim, isso é bem anormal, deveria estar relaxando e curtindo as noites de sono nas férias. Vá dormir lá uns dias e me conte se o louco sou eu mesmo.
Sexta, 15 de janeiro de 2010.
Justamente hoje, que precisávamos acordar cedo, nosso cuco falhou, primeiro despertou às 4h30, depois voltou a dormir e só fomos despertados de novo às 10h da manhã com o povo batendo em nossa janela.
Alerta vermelho, hoje acabou a cerveja de novo. Mais um dia sem sol e muito vento o dia todo, ótimo pra pintar o portão da casa com óleo queimado e verniz. Comecei a tarefa, que me dei espontaneamente, às 14h15 e terminei às 16h30, ao final estava totalmente pintado, não só o portão, mas todo meu corpo. Se alguém ainda lembra da “Cheetara” dos Thundercats, foi bem assim que fiquei. Meia hora de banho esfregando o couro sem dó. Pronto, já cumpri minha penitência do dia, hora de por pra gelar as cervejas que a querida Uli resolveu comprar. Viva o portão.
Terça, 19 de janeiro de 2010.
A terapia desocupacional continua firme e forte. Meus objetivos de mínimo esforço até pra respirar continuam sendo cumpridos.
Quarta, 20 de janeiro de 2010.
De todos os ciclos de chuva que tivemos esse iniciou pra não ter fim, parece. Chuva na praia significa ficar trancado em casa com as crianças e pouca distração pra elas. Corra.
À noite tivemos uma “cantoria” na casa de uma amiga de minha sogra. Tudo embalado por um poeta ambientalista violeiro. O Theo, mais sem noção achou tudo lindo e festivo. Eu bebi. A chuva despencou sem dó. Era só o início do fim.
Quinta, 21 de janeiro de 2010.
Com a chuva que veio desde quarta você acha que algo mudou radicalmente? Vejo minha sogra e a tia avó de meu sobrinho se matando pra fazer o bolo e doces do aniversário dele no sábado. Algo me diz que vai dar merda.
Sexta, 21 de janeiro de 2010.
Pra quem fica direto na praia, sexta-feira é o dia de receber “visitas”, são os familiares e amigos que não estão na vadiagem como você que vem passar o fim de semana, nesse caso, estão chegando pra passar o aniversário do Pedro, meu sobrinho. Stress. A mulherada criada nos moldes do século XX não consegue conceber que alguém chegue na casa de praia e na casa de praia tenha algum grão de areia pelo chão. Corre varrer, limpar e lavar. E a chuva continua.
Pra melhorar tudo a chuva não dá trégua, o rio sobe o quintal alaga, a fosse entope, as descargas não funcionam mais. Fodeu.
Sábado, 23 de janeiro de 2010.
O que era pra ser um feliz e ensolarado último fim de semana de férias virou uma operação de evacuação de emergência. Acordamos todos preocupados e decididos a abandonar a ideia de festa de aniversário, o bolo já tinha nos abandonado há tempos, derreteu por excesso de umidade. O quintal virou um piscinão sem ralo, com ameaças de entrar em casa com a água acumulada da chuva. E coisa acumulada e boa, só Mega Sena.
Desmontar acampamento e correr pra bem longe dali era o mantra do dia. Esse plano nos moveu até o último momento. Empacotar às pressas a bagagem de um mês fora de casa não é tão simples, mas quando você está sem tomar banho e precisando fazer o número dois, três e afins vira uma tarefa muito rápida, motivação é tudo. Até tentei usar o mato do vizinho como banheiro, mas a falta de privacidade não era muito estimulante pra realizar a tarefa com precisão. Melhor esperar voltar pra casa, foi o que fiz. Isso meu deu forças e paciência pra empacotar tudo correndo e pegar a estrada o quanto antes. Era muita água. Ao chegar em Curitiba vi nos noticiários que Itapoá estava isolada pelas chuva. Por muito pouco não ficamos presos na “ilha” de Itapoá.
Férias é tudo de bom, segunda-feira volto correndo pro trabalho.