A entrevista foi marcada para a tarde. Talvez ela não gostasse de acordar cedo. Chegamos ao local, a descrição conferia, um edifício alto com fachada néo-classica que terminava em torres góticas apoiadas sobre cúpulas bizantinas. Sim, aquilo era uma zona. Na subida do elevador nos perguntamos com que cara ela estaria hoje. Afinal as lendas são de que ela muda de aparência e estilo de tempos em tempos. O espanto do inesperado nos atingiu quando abriu-se a porta. O hall escuro estremeceu com a silhueta desenhada contra a luz da sala. Antes que perguntássemos fomos respondidos: sim, sou eu quem vocês procuram. Sentamos e respiramos fundo tentando controlar os batimentos cardíacos atrapalhados pela bela senhora. Que de senhora não tinha nada.
Como garoto virgem que senta e espera que a prostituta o inicie, esperei. Ela como estava no ramo há séculos saberia o que fazer para desinibir-nos. Foi direto ao assunto, contando como tudo começou. Sem frescura ou meias palavras. Como toda boa prostituta. Contou que ao desembarcar no Brasil após 1500 passou um tempo no litoral onde a usaram como era possível na época. Vinda da Europa, com tendências e comportamentos estrangeiros, teve que se adaptar `a rudeza dos colonos recém-instalados. Quando foi chamada ao interior já havia experimentado de tudo. Passara na mão de coronéis, homens públicos que a usavam para demarcar território e impor as normas da coroa. Até membros do clero se aproveitavam de seus dotes. Garantiu-nos que sempre foi um fenômeno sua adaptabilidade. Ficou conhecida em todo o país. Mulher madura, onde passava deixava sua marca estampada. Fazia de tudo por um cliente satisfeito. Fosse ele cristão, ateu, rico ou pobre. Até quem não podia pagar não ficava na mão. Reinava absoluta no Império. Reis não pouparam ouro para tê-la a seu serviço. Em sua temporada em Minas não poupou homens de famíllia e padres. Vestiam-na com ouro e adornos feitos pelos melhores artistas da época.
Moça sempre aberta a mudanças, foi eclética e adotou comportamentos discutíveis até para uma prostituta. Mas seu passado recente lhe permitia tais inovações. Conheceu clientes fetichistas que com suas manias metálicas lhe causaram algumas cicatrizes. Que ela carrega até hoje com muito orgulho. Viveu a glória metálica da Revolução Industrial. Quando encontrou imigrantes no Paraná deu em muitas casas de madeira. Lembra bem até hoje das famosas técnicas de encaixe.
Sua vida mudou radicalmente quando conheceu Le Corbusier, um homem com tara por máquinas. Suas fantasias tecnológicas desvirtuaram a menina, que achava que já havia feito de tudo para os homens. Após ser penetrada pela modernidade foi dar em Brasília, atendendo a um presidente. De lá pra cá continuou realizando os desejos mais estranhos que surgiam. Ela nos disse que anda meio cansada, mas não pensa em se aposentar. Continua atendendo pobres e ricos. Diz que não sabe mais onde vai dar. Mas pra mim a velha Arquitetura vai continuar sempre um tesão.
Réquiem
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Essa semana cortaram o pinheiro aqui do quintal de casa. Motivo para escrever sobre isso: não era apenas um pinheiro. Era um pinheiro do Paraná, uma araucari...
Há um mês
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